segunda-feira, dezembro 12, 2005

A separação...

As relações interpessoais, desde muito cedo, tomam proporções deveras interessantes nas nossas vidas.
Numa separação, a violência das emoções impera e domina-nos.
Passar do “eu” ao “nós” é um processo muito moroso e delicado, onde o sentimento de abandono repete-se.
O cordão umbilical que nos garante a segurança e a protecção afectiva é quebrado e, por instantes, sentimo-nos perdidos.
Contudo, a separação, em geral, faz-nos sofrer, mas faz-nos, igualmente, crescer e amadurecer. Porém, é importante relembrar que não temos que ter pressa para amadurecer. É um processo que leva tempo e cada um tem o seu.
Uma vez, disseram-me que uma pessoa constrói-se nas dificuldades da vida e não na perfeição das coisas. Isto explica-se porque qualquer tipo de separação é acompanhado de um virar de página e, uma forma de a superar é falar sobre isso e/ou escrever. Quer seja com alguém especializado na área, caso se justifique - psicólogo, psiquiatra ou psicoterapeuta - ou com alguém que nos oiça e apoie – um amigo, namorado ou familiar. Ainda é possível conciliar as duas coisas, pois dependendo do caso em questão é necessário o apoio profissional e das pessoas que nos são queridas e inspiram confiança... A escrita é mesmo considerada uma forma de terapia. É um complemento da psicoterapia, por exemplo e faz verdadeiros milagres...
Nas separações sucessivas há, constantemente, ecos da infância, mesmo que se procurem outras justificações plausíveis. Muitas vezes é difícil de aceitar a separação em si ou, até mesmo, entendê-la...
Concretamente na relação mãe/filhos, com a saída de casa dos mesmos, as mães sentem-se quase inúteis, segundo um ponto de vista psicossociológico. Há várias gerações que assim o é e, como é de conhecimento geral, os pais têm alguma dificuldade em desassociar a imagem de criança ao adulto que nos tornamos. A figura maternal constata que os filhos saem-se bem sem elas e, encaram isso como se nós (filhos) não precisássemos delas.
Mas, então pergunto: não é esse o objectivo final de toda a educação?
É um facto curioso, mas mesmo assim, existem sempre as ditas mães galinha que, por elas, nunca nos deixariam amadurecer e voar, coisa que até é saudável, ajudando-nos a crescer. Separar-se sem desligar-se dos laços afectivos é o caminho.
Quando nos separamos dos nossos pais (quando os filhos são já maiores de idade, claro!), esse afastamento, físico ou geográfico, faz de nós pessoas mais experientes, fortes e maduras. Ser do Funchal e vir estudar para Lisboa, fez de mim isso tudo e muito mais. Fez de mim uma pessoa melhor. O facto de estarmos longe dos que nos são importantes, faz-nos dar valor às mais pequenas coisas, às relações e, por conseguinte, às pessoas, o que não significa que seja fácil... É como se vivessemos num casulo a nossa vida toda e, de repente, libertamo-nos desse mesmo casulo e vamos à descoberta, até encontrarmos o nosso caminho, a nossa vocação. Até nos encontrarmos a nós próprios.
A separação acaba por ser uma espécie de catarse e uma grande lição de vida. Sem o apoio dos que nos são importantes, não seria possível dar-se esta transformação... Só assim tornamo-nos fortes e capazes de aprender com os erros que nós, também, cometemos.
No caso dos estudantes que vão para outra cidade, dá-se a separação da casa e das pessoas amigas e familiares. Há, então, a necessidade de fazer uma boa gestão do tempo e dinheiro, lidar com novas situações e fazermos as mais simples funções sozinhos é uma óptima preparação para o resto da nossa vida. Isto faz-nos ganhar uma certa confiança em nós próprios, faz-nos acreditar que somos capazes. É uma situação que todos nós nos dias de hoje, mais cedo ou mais tarde, teremos que passar.
Desligarmo-nos do tal cordão umbilical, darmos um passo em frente, amadurecemos, crescermos e ganharmos finalmente a nossa independência e autonomia. Uns formam uma base mais sólida, em termos de personalidade, que outros; uns são mais preparados que outros... Isso tudo depende de nós, somente! Podemos ter tudo ou ser nada...
Nos tempos de hoje, as relações à distância tomam proporções interessantes... Na nossa sociedade temos o caso dos professores que são obrigados a viverem, muitas vezes, longe das suas recém formadas famílias... Acabando, frequente e infelizmente, em divórcio. Vêm-se obrigados a irem para o sítio onde são destacados, pois o trabalho de professor, hoje, é quase um trabalho de nómada, enquanto não fica efectivo. Em suma: são casais de fim-de-semana, sem estabilidade emocional e sem incentivo no trabalho.
Eu trato a separação quase por “tu”. Desloquei-me para longe da minha família e amigos devido aos meus estudos e, força das circunstâncias estou, também, longe do meu namorado. As saudades são muitas e, frequentemente, perde-se o controlo do que sentimos... As proporções dos sentimentos tornam-se gigantescas... Surge uma carência afectiva e emotiva muito grande...
Sei, hoje, que só podemos ser verdadeiramente altruístas quando estamos bem connosco. Só podemos amar terceiros quando nos amamos primeiro.
Por estas razões e outras, tratem de cultivar a vosso amor próprio! A mudança faz parte da vida, que não é nenhum mar de rosas... A vida é, sim, uma rosa com muitos espinhos. Um entrelaçado de caminhos com altos e baixos. E só nos cabe a nós dar a volta por cima! E, encontrarmos o nosso caminho. O caminho certo.

1 comentário:

  1. São através destas separações que descobrimos os verdadeiros amigos e não os "amigos" da ocasião. Por vezes nestes momentos de separação temos algumas tristezas por vermos pessoas (será que realmente podemos chama-las deste modo, isto é de pessoas) que dissiam ser grandes amigos e depois da noite para o dia, virarem-nos as costas e nem sequer um bom dia nos darem, é bem triste. Por vezes gostava de estar no teu lugar para ver só quem era realmente um amigo verdadeiro, seria triste mas a melhor maneira de sabermos quem eram amigos e não colegas do secundário, que andavam sempre ao nosso lado quando era para estudar e sair, isto é interesses. Era a melhor ocasião!
    Um beijo deste teu verdadeiro amigo e não um colega (pois nunca vomos) do secundário
    Bruno Vieira

    ResponderEliminar